Vem do Episódio 5

 

Escolhi relatar a você a história da espiritualidade começando pela epopeia do Mahabharata, não porque a história tenha começado aí, isso não, se formos buscar a origem dessa chegaremos à própria origem do Universo e ao que o originou.

Não, escolhi o Mahabharata porque este é um dos maiores livros já escritos no mundo, é o mais longo poema jamais escrito, é 15 vezes mais longo que a Bíblia, este é o poema que dá origem e é depositário de inúmeras crenças, de início circunscritas à Índia, mas a partir do século XX disseminadas no Ocidente também.

As crenças é o que os seres humanos conseguem entender das operações cósmicas em andamento, que através das crenças são dramatizadas em eventos portentosos.

Diz-se do Mahabharata que tudo que está escrito nele pode ser encontrado em outro lugar, da sua vida cotidiana, por exemplo, e o que não estiver escrito nele não poderia ser encontrado em lugar algum.

Este livro foi desconhecido do Ocidente até o século XVIII, porque o Ocidente se dedicou durante séculos a evangelizar o Oriente, mas nada trouxe de sua sabedoria para cá. Com o advento do Iluminismo, começou a haver uma recíproca, e o Ocidente prestou atenção à sabedoria contida nos escritos orientais.

O tema central do Mahabharata é algo que nos é muito conhecido, é a história de um sentimento nítido de que uma ameaça pesa sobre o mundo, o sentimento apocalíptico que acompanha a observação de que as tradições estão sendo abandonadas e que o mundo se degrada o tempo inteiro e a uma velocidade inusitada.

Em torno desse sentimento apocalíptico vai se tecendo a reação humana, com alguns percebendo que essa destruição das tradições é providencial, porque o mundo muda e tudo precisa ser reinventado, com, ao mesmo tempo, grupos de humanos resistindo e defendendo as tradições.

Assim se monta o cenário do jogo sutil e feroz do destino, com os seres humanos exercendo protagonismo ou simplesmente sendo arrastados por ondas maiores do que suas capacidades de compreensão.

Nós, humanos, engraçados e patéticos, vulneráveis e poderosos ao mesmo tempo, tentando acompanhar as grandes ondas do destino, entre a compreensão divina e o envolvimento na tentativa de solucionar os nossos problemas particulares, mas esse peso enorme pairando sobre nós, sentindo que algo maior acontece sem, no entanto, sermos capazes de raciocinar direito de que isso significa que os mitos vão se apagando paulatinamente enquanto a tragédia é tecida, porque deixamos de reconhecer algo superior a nós e vamos nos apossando do trono do mundo.

Há toda uma polémica em torno de o Mahabharata ser a descrição de eventos históricos ou de se é apenas uma obra de arte, sem nenhuma referência a fatos acontecidos.

Acho isso irrelevante, porque de toda maneira, tendo sido esta uma história subjetiva ou objetiva, ressoa até hoje exercendo influência marcante no modo de pensar e na perspectiva de encontrar no poema respostas a perguntas muito íntimas e profundas.

Podemos ser sobrelevados pelo tempo, podemos ser destroçados pelas potências cosmogônicas, mas também podemos acompanhar e ser partícipes e protagonistas dos movimentos cósmicos.

Como diria Borges: “O tempo é um rio que me arrebata, Eu sou o rio. É um tigre que me destroça, Eu sou o tigre. É um fogo que me consome, Eu sou o fogo.”

A nossa passividade ou nosso protagonismo, é isso que se entretece em qualquer história da espiritualidade que mereça ser chamada de tal.

Como resolvemos nossos dilemas e o quanto nos sacrificamos para sermos maiores do que nós mesmos, maiores do que nossos problemas particulares para sermos protagonistas do que nesse momento da história precisa ser feito, independentemente de gostarmos desse papel ou não.

O dilema de, já que nos encontramos num tempo de destruição das tradições, qual seria a ação correta a empreender? Qual ação, apesar de parecer correta, a intuição nos indica ser errada e deveria ser evitada? E como evitar nos deixarmos abandonar à inação pela perplexidade que nos faz sentir frágeis e vulneráveis diante dos dilemas que precisamos resolver?

A espiritualidade sobrevém aos que se atrevem a ser claros e sinceros em relação à vida, aos que apesar do medo e da vulnerabilidade, seguem em frente movidos por algo que não sabem explicar.

Se isso dá certo ou não acaba se tornando irrelevante, porque uma coisa é certa, nesse caminho se experimenta muita verdade e beleza.

 

Segue no Episódio 7