Vem do Episódio 6


Repito, a História da Espiritualidade não é a história das religiões, mas certamente encontra pontos em comum com ela, porque todas as religiões se formam em torno de eventos celestes, de revelações e de ungidos, cujas presenças são incontestáveis pontos de inflexão na história secular de nossa humanidade. Repito, essa nossa história secular, aos olhos da história da espiritualidade, parece ser o que acontece entre uma e outra presença desses ungidos, as presenças divinas feitas seres humanos.

A presença divina se confundindo com a humana e convivendo de tal maneira que enquanto o humano vai adquirindo percepções até então insuspeitadas, ao mesmo tempo a presença divina vai ficando surpresa e por vezes angustiada, envelhecendo junto aos humanos e, em alguns casos morrendo brevemente sem chamar a atenção, como que por engano, mas em outros com toda pompa e circunstância, fazendo da morte um espetáculo aparte.

De todas as maneiras, o ponto de inflexão incontestável radica em que a presença divina declara seu amor ao humano, experimentando suas dificuldades e limitações e lhe entregando instrumentos e o conhecimento de como os usar, do que se abster e do relativo lugar do humano numa ópera de dimensões cósmicas.

E o humano encontrando em seu coração profundo o que é.

A ópera cujo objetivo parece ser reavivar no humano a vontade de conectar-se ao coração profundo, que é de dimensões cósmicas, e ser protagonista, dando continuidade ao processo, porque até então, sua ignorância a esse respeito consolida uma inércia tal que faz do humano um lugar de interrupção, onde o processo cósmico sofre trancos e solavancos, carente da necessária transparência que promove no humano a continuidade do processo.

E a espiritualidade é esse curioso e peculiar lugar onde o humano e o celeste dialogam, de um jeito em que a contestação característica do humano, temeroso e desconfiado de algo superior a ele, depois de muito debater-se se torna aquiescente ao incontestável, de estar diante das evidências que corroboram o que inflama seu peito desde sempre e para sempre.

Para o humano isso representa o sobre-humano esforço de superar a si, de reconduzir sua fidelidade, renunciando a uma visão consolidada que se reproduz por inércia e que ele pensa ser a verdade, por isso, essa recondução é experimentada como se o humano estivesse traindo a si, traindo suas tradições e condutas, para se tornar fiel a outra visão, àquela que o espírito lhe oferece.

É um diálogo duro que passa por muitos momentos e nem sempre é amoroso, pelo contrário. Por isso, as sábias exortações de apaziguamento são fúteis e ecoam sem sentido. Não, pelo contrário, o diálogo do humano e o divino é passional, de intensidade absoluta para, no fim, o humano render sua ignorância, não mais lhe falar e a deixar morrer sozinha à beira do rio.

Segue no Episódio 8