No início da década de 90 os leitores do Estadão seguiam minha coluna de horóscopo no Caderno 2 e esta tinha se tornado uma referência, por isso a Editora Chefe me outorgou um espaço maior, um décimo terceiro espaço para que eu escrevesse uma mensagem de abertura para o horóscopo.

Depois de alguns meses decidi fazer esta abertura todos os dias com a seguinte frase:

“No céu, ( Mercúrio e Netuno estão em quadratura; Lua é Nova em Câncer.)

Enquanto isso, aqui na Terra os seres humanos...... “. A partir dessa frase eu iniciava o texto de cada dia.

Naquele tempo as mensagens dos leitores vinham por correio físico mesmo, e me lembro de uma carta de uma senhora, muito injuriada, me chamando de arrogante, pedante e por aí ia o rosário de impropérios que me endereçava. A razão disso era de que para ela, eu falar dos seres humanos era como se eu estivesse me pondo num lugar superior, e que eu não tinha direito a isso.

Com o tempo tirei algumas conclusões dessa experiência.

Em primeiro lugar, o estilo do texto não descrevia uma mente superior falando de uma inferior, mas de um distanciamento necessário para testemunhar o que meus semelhantes de meu próprio reino da natureza estavam fazendo e o quanto isso estava em sincronia com os movimentos estelares. O objetivo do texto era o oposto do que a leitora injuriada achava, porque o que fazia na época, e continuo fazendo até hoje e farei também amanhã, é incluir vocês leitores nessa visão, para terem também o desapego e distanciamento necessário para se verem a si mesmos sincronizados com o céu. Ela sentiu o contrário, que eu estava excluindo todo mundo.

Em segundo lugar, a favor da leitora injuriada, posso dizer que até esse momento não se pensava nas pessoas como seres humanos, esse era ainda um conceito muito avançado nos meios de comunicação, mas que foi muito rapidamente assimilado, porque hoje em dia, mais de 20 anos depois, falar de seres humanos virou moeda corrente, o que muito me alegra, porque indica que nosso reino ampliou muito seu ponto de vista.

Em terceiro lugar, constato que a regra era e continua sendo: não importa quão bem você faça seu trabalho, sempre haverá alguém que não vai gostar e vai criticar.